Crónicas De Um Profundo Alentejo

27 Dezembro 2005

Adizeres & Aforismos

"Aquele gaiato dum cabrão é mais fino que lã de cágado!"

08 Dezembro 2005

Alberto e o cão.

Alberto é um peculiar indígena desta terreola perto do sítio onde Judas deixou as botas. Calças puxadas até aos sovacos, óculos tipo ecrân de televisão de armação dourada, olhar desgovernado e faz-se sempre acompanhar de um saco de plástico. Desconhece-se o conteúdo, mas sabe-se que o saco varia. No entanto, esta personagem de aspecto grotesco, conseguiu um grande feito, apesar do chavão que existe... Eu explico. Já ouviram a expressão, e primeiro lema do jornalismo: Noticia não é quando um cão morde um homem, mas sim quando um homem morde um cão? Pois é... Alberto conseguiu-o. Tudo se passou depois de uma sessão de copofonia muito bem conseguida. Alberto sai da tasca, vira na outra rua à esquerda e subitamente é mordido por um cão. Entontecido pelo alcóol e pelas dores excruciantes que um Cocker Spaniel consegue provocar, Alberto, ainda assim, lança-se como uma flecha, num dia de vendaval, em perseguição ao seu agressor. Quando o Cocker finalmente é agarrado, acontece-lhe algo que nunca pensara ser possível. Um homem (sim, um humano) tinha-lhe cravado os dentes na sua orelha esquerda! Sob o olhar incrédulo dos transeuntes, quer cães, quer pessoas, Alberto pousou calmamente o bicho no chão, pegou no seu saco de plástico e continuou o seu caminho, coxeando e cambaleando. E assim foi criada a lenda do Homem Que Mordeu o Cão. Quanto ao cão, esse nunca mais foi visto. De orelha e orgulho feridos deve estar a planear a próxima jogada. Alberto, prepara-te.

04 Dezembro 2005

Há antas e antas.

Não, não tem absolutamente nada a ver com o Futebol Clube do Porto, mas há antas e antas. Há as antas de cariz ancestral, monumentos megalíticos de valor histórico inestimável e depois há as antas humanas. Aquele tipo de pessoas para quem o bom senso e a inteligência são um simples mito. Aqui nas, agora, verdejantes planícies não há falta de nenhum dos dois tipos de anta. Senão veja-se.

O abastado senhor desta propriedade achou por bem destruir um túmulo de granito com milhares de anos, existente no seu terreno, simplesmente para enfeitar o magnífico portão de ferro. Mas isto não me espanta. O que me espanta é as autoridades competentes não fazerem nada... Podiam pendurá-lo numa oliveira pelos pés e esperar que os corvos lhe arrancassem os olhos, por exemplo.

27 Outubro 2005

A breve história de Aguiar

Aguiar é uma bela freguesia do concelho de Viana do Alentejo e, como é óbvio situa-se aqui, nas profundezas do Portugal Rural. Em tudo igual a qualquer vilarejo alentejano em que a indolência estival parece prolongar-se todo o ano, reflectindo-se no acentuado sotaque nativo. Contudo tem uma particularidade. Ninguém pergunta as horas a ninguém. Se chegar um forasteiro e perguntar que horas são a algum habitante da vila, corre o sério risco de ser expulso do local a tiro de zagalote. Devo avisar desde já o caro leitor que nunca estive em Aguiar, nem nunca conheci ninguém de lá. Esta estória provém do tradicional boca-a-boca, pelo que pode ter algumas imprecisões.
Há muitos, muitos anos, um pároco recém-instalado teve a brilhante idéia de remodelar (ou comprar) o relógio situado na torre Igreja. Ainda que tivessem surgido rumores que davam conta que o padre namoriscava algumas senhoras casadas, ninguém duvidava da boa vontade do senhor pároco. A população aplaudiu de pé a iniciativa e, apesar dos fundos paroquiais serem muito limitados, os mais abastados membros da comunidade prontificaram-se a ajudar economicamente a empresa. E assim foi. Feita a colecta, o senhor padre partiu de férias para a cidade, com os dinheiros recolhidos, prometendo enviar o bendito relógio no primeiro combóio para a vila. No dia combinado lá estava a populaça aguardando a chegada daquele pequeno, mas majestoso, sinal de progresso. As senhoras, em representação dos maridos investidores que andavam ocupados na labuta diária, acotovelavam-se para ver o dito cujo. As encomendas do dia são despejadas na plataforma de desembarque, entre as quais um enorme e pesado caixote de madeira, coisa pouco vista por ali. "O meu marido tem parte nisso", "O meu também!"- ouvia-se por entre a ansiosa massa humana. Abre-se o caixote e... Surpresa! Em vez de um portentoso relógio o padre havia enviado quilos e quilos de chifres de boi, provavemente desviados de algum matadouro. Imaginem vocês como ficaram os habitantes de Aguiar. Além de se ter esfumado com o dinheiro, o sacana do padre ainda chamou cabrões a todos os homens da vila. Vígaro.
Provavelmente alguns até o eram, mas esse segredo desapareceu com o pároco... e com o dinheiro.
Mas não se esqueçam. Quando, e se, forem a Aguiar levem relógio e pode ser que saiam ilesos.

19 Outubro 2005

Quando fôr grande, abro aqui uma discoteca


Ou não. Se calhar fica mesmo assim.

15 Outubro 2005

Duas frases, duas estações, dois sentidos.

  1. "Está um frio que nem lume temos"
  2. "Está um calor que até assa canas à sombra"

12 Outubro 2005

Sobre insultos

Todos os usamos. Uns mais "politicamente correctos" do que outros, mas todos os usamos. Quer seja para insultar o arrogante do nosso chefe e a mãe dele, quer seja para insultar a esquina daquela mesa que parece desviar-se de propósito para nos acertar nalgum sítio doloroso. Mas por vezes, ficamos tão revoltados com alguém, ou algo, que ainda vamos mais longe e chegamos ao ponto de sugerir a essa pessoa uma viagem até algum local desagradável. No norte do país há o ominoso hábito de mandar o pessoal "para a puta que o pariu". Mais a sul, os ânimos refreiam e pede-se para o dito individuo ir "à merda" ou "dar uma volta ao bilhar grande". Mas aqui, no Alentejo, o ódio que se deseja ao próximo ultrapassa o inimaginável. Aqui, costuma-se mandar o alvo "ir bailar com a mais feia" (adaptável ao sexo oposto, claro). Nem sequer um palavrão é dito e a revolta é expressa na mesma com enorme intensidade. Quantos de vocês é que desejariam dançar com a tipa mais feia de uma determinada aldeia? Vá, quantos?

11 Outubro 2005

Sobre apelidos

Não sei bem porquê, mas aqui nas profundezas do Alentejo os apelidos nativos são um pouco diferentes dos que abundam pelo resto do país. Enquanto acima do Mondêgo, por exemplo, é fácil encontrarmos Sousas, Costas e Teixeiras, aqui em baixo damos frequentemente de caras com Borda d'Águas, Pé-Leves e Tira-Picos. Talvez tenham sido as origens campesinas destas gentes que fizeram com que os apelidos nascessem associados a coisas mais ou menos objectivas. Fazem lembrar os apelidos das personagens hobbits de J. R. R. Tolkien: Não-sei-quantos Folha-Verde, Fulano Pés Peludos, etc. Bem, mas isto tudo para dizer que alguns apelidos são peculiarmente curiosos e podem originar situações estranhas. Ontem, por exemplo soube que o Maneta tinha sido um grande jogador regional de ténis-de-mesa. Percebem o que quero dizer? Dá que pensar se o melhor jogador de tiro ao alvo não será o Manel Cego...

10 Outubro 2005

Chove que Deus a dá!

A espera do senhor da imagem em baixo acabou, assim como a de todos nós. Finalmente água cai do céu a cântaros dando de beber a plantas e animais. Adoro este cheiro a terra molhada, ver como os campos renascem da secura prolongada... Já se sentia a falta dos dias cinzentos. Ouve-se dizer que a chuva foi trazida por uma tempestade tropical chamada Vince que anda ao largo da costa portuguesa. Obrigado Vince.

09 Outubro 2005

Imagem que ficou na retina de alguém...


Ao melhor estilo de um bluesman, este nativo espera pacientemente o fim da seca sob um impiedoso sol estival. Fotografia gentilmente cedida por H.Figueiras.

06 Outubro 2005

O Eclipse

No passado dia 3 deu-se o grande acontecimento do ano astronómico: um eclipse anular do Sol vísivel em Portugal. Primeiro a Expo 98, depois o Euro 2004 e agora isto... Estes senhores sabem mesmo agradar ao povo, não sabem? É pena é o país estar de tanga, cheio de sede e em chamas, mas isso é o menos. Voltando ao eclipse que, como disse, foi o maior evento do ano astronómico, saí de casa pelas 8 da matina e, durante as duas horas seguintes, fui espreitando o Sol de 20 em 20 minutos. A janela do local onde trabalho (sim, há trabalho no Alentejo) fica virada para a principal praça da terra, assim sendo, reparei que os habituais velhotes sentados debaixo dos plátanos estavam todos equipados com os benditos óculos-de-ver-eclipses a olhar para o céu. Discutiam entre eles que já não era a primeira vez que viam um fenómeno semelhante, que daqui a não-sei-quantos-anos haveria um eclipse total visível em Portugal e que olhar para o Sol sem protecção provocava retinopatia solar (afirmava um, orgulhoso pela informação de que era portador). "Idosos bem informados", pensei eu. Cheguei a casa para almoçar e liguei a televisão. Eis que surge uma senhora, mais ou menos da idade daquele pessoal da praça, que responde à pergunta "Sabe o que é um eclipse?" da seguinte forma: "É o prínchipio do fim do mundo!"
E assim fiquei orgulhosíssimo dos velhotes alentejanos. Por mais parôlos que sejam têem sempre espaço para saber mais um pouco... Andar bem informado não custa nada e poupam-se figuras tristes.

04 Outubro 2005

Amadeu, uma estranha forma de vida

Ele há pessoas que passam tantos anos a fazer a mesma coisa, que quando deixam de a poder fazer, não se conseguem adaptar e fazer outra coisa qualquer. Aqui neste piqueno cantinho no meio da planície alentejana vivia um tipo de nome Amadeu. Toda a sua vida foi passada a cometer ilegalidades de toda a espécie e feitio, até que subitamente envelheceu. Conheci-o nessa altura e garanto-vos, era dificil acreditar em todas as histórias que se contavam acerca dele, pois a língua do povinho é muito aguçada e o homem era de simpático trato, apesar dos anos passados de presídio em presídio. A única coisa que sabia fazer para além de roubar o próximo tinha a ver com jardinagem, como qualquer alentejano que se preze, nunca se atrapalhou com sacholas e ancinhos. Mas também como muito bom alentejano vivia segundo o lema "mais vale uma mão inchada que uma enxada na mão" e, depois de alguns meses a gozar de liberdade condicional, chegou à conclusão que estava velho demais para trabalhar. Então uma bela noite, foi apanhado pelas autoridades locais dentro de uma loja (que devia estar fechada), todo sorridente, a jogar Solitário (irónico, não?) no computador. Foi preso por arrombamento. "Foda-se, na prisa tenho cama, comida e roupa lavada e o melhor é que não mexo uma palha!" foi a sua justificação. Já não se fabricam destes, pois não?
Amadeu, onde quer que estejas, um grande bem-houve!

02 Outubro 2005

A essência da pesca

Sempre me perguntei que raio de fascínio existiria em acordar quase de madrugada para passar um solarengo domingo, numa qualquer albufeira, a segurar uma cana, esperando pacientemente, que uma carpa faminta morda a irrequieta larva de mosca. Um dia experimentei. Sete e meia da manhã de um qualquer domingo lá estava eu a ultimar os preparativos. Os experts trataram do típico arsenal piscatório e eu fiquei encarregado do bar da expedição: 2 grades de mines e um garrafão do fabuloso tinto de Borba para 4 bocas sequiosas. E lá fomos. Montaram-se os artefactos (é incrivel a parafernália de acessórios que se usam para enganar os bichos mas eu, claro, tratei da esplanada), espalhou-se o engodo (isso sim, sei fazer) e lançou-se o isco à água. Fiquei responsável por uma das canas pequenas e por uns minutos não lhe tirei a vista de cima. Subitamente começou a abanar descontroladamente, óbvio sinal que algum peixe parvo não tinha nada melhor para fazer do que andar a morder anzóis alheios (acredito que haja peixes viciados nisso). Com uma técnica digna de pescador de alto mar, e depois de um esfoço quase inumano, lá estava a carpazinha de 250 g a saltitar em terra seca. Tirando o novo piercing, asseguro que o animal não foi mal tratado, muito pelo contrário, foi-lhe ofertada uma quantidade substancial de milho cozido, fabulosa iguaria para peixes cansados. Do que eu não estava à espera foi da minha reacção a este acontecimento. Foi como se algum instinto animal tivesse sido despertado em mim, depois da visão do peixe a estrabuchar no anzol. Todas as minhas capacidades mentais (eu, sei que não são muitas, mas é o que há) foram involuntariamente dirigidas para o seguinte objectivo: apanhar todos os peixes daquela barragem. Estava possesso. E agora já percebo os pescadores desportivos e aquilo que os move. É extremamente viciante. Mas descansem os mais ecológicos leitores, não apanhei mais nenhum peixe, nem eu, nem ninguém, e o que estava preso foi solto depois do farto banquete. Quanto a nós, resolvemos passar de pescadores frustrados para pescadores embriagados. Foi um belo dia!

30 Setembro 2005

Imagem que me ficou na retina direita



Ainda sobre o Ti Ratinho

Imaginem uma mercearia daquelas à antiga, com caixotes de frutas e leguminosas até ao tecto, onde a caixa registadora é uma folha de papel pardo, um lápis afiado à navalhada e uma caixa de Logan's para guardar o carcanhol. Onde o cheiro a pêras maduras invade salutarmente o ar e para apanharmos aquele pacote de lâminas de barbear Bic amarelas temos que desviar a palete de garrafas de gasosa (nada de 7Up ou Sprite...é só mesmo gasosas). Essa é a loja do Ti Ratinho. Seis metros quadrados atulhados de víveres de mau aspecto mas de óptima qualidade e com a garantia dos produtores da terra. Sim, ainda há sítios desses em Portugal.
Foi nesse mesmo sítio que, conta-se, certo dia um cliente terá declarado:
- Ti Ratinho, olhe que estes pêros têem bicheza!
Ao que o dito cujo responde prontamente com indignação:
- Chiu! Fala baixo senão toda a gente os quer e não há para todos!

28 Setembro 2005

Este blog nasceu...

Porque o Alentejo não é só o Alqueva, a Zambujeira do Mar e aquela amarelada planície que se estende no caminho do Algarve. É muito, mas muito, mais que isso. E é para clarear algumas ideias erradas que este espaço foi criado. Aliás, o simples gesto subjacente à criação deste blog desmistifica por si só a ideia preconceituosa de que no Alentejo não há internet nem computadores. Há sim senhor. Escrevi isto num fabuloso Pentium IV a 3600 GHz com acesso ADSL. E não, não o trouxe de Lisboa, comprei-o ali mesmo na loja do Ti Ratinho e até recebi uns pézinhos de couve completamente grátes! Ah pois!